Diário de Bordo: Um Dia Mágico na Pedra da Botija – Parque Estadual Marinho da Pedra da Risca do Meio
5:00 AM - Fortaleza, Ceará.
O despertador tocou com uma insistência que, por uma vez, não me incomodou. A luz já despontava no horizonte e, da minha varanda, eu podia ver o mar se espreguiçando. Hoje não seria um dia comum. Hoje, eu irei explorar o Parque Estadual Marinho da Pedra da Risca do Meio, especificamente um dos pontos que mais gosto, conhecido como Pedra da Botija. A expectativa estava no ar, cheirando mais do que o café que eu estava prestes a tomar.
6:15 AM - Praia do Mucuripe.
O ponto de encontro estava fervilhando de atividade. O cheiro de protetor solar e neoprene misturava-se com o ar salgado do porto. Nosso barco já estava sendo carregado com os cilindros e equipamentos. A tripulação nos recebeu com um sorriso que tranquilizava até o mergulhador mais novato. "Hoje o mar tá flat," o staff garantiu.
6:30 AM - Início da Navegação.
Motor ligado, âncora recolhida, então guinamos a boreste e deixamos a costa de Fortaleza para trás. A visão da cidade, com seu skyline se afastando, é hipnotizante. O barco seguia navegando cerca de 10 milhas náuticas (aprox. 18 km) para nordeste.
Hora de ouvir as instruções do briefing do mergulho: "Nosso ponto hoje é a Pedra da Botija. A profundidade máxima será de 23 metros. A correnteza está praticamente zerada, então fiquem tranquilos, mas sempre atentos aos seus duplas. O ponto principal é a pedra grande, que forma uma estrutura única, rica em fendas e vida marinha escondida."
A navegação foi uma experiência por si só. Durante um pouco menos de duas horas, o vento batia no rosto e os verdes mares cearenses, eternizados na música de Eudes Fraga, foram se transformando aos poucos em um azul profundo e promissor. No jargão dos mergulhadores: água roxa. Cruzamos com algumas jangadas e barcos de pesca, mas à medida que nos aproximávamos do Parque, a sensação de isolamento e mistério crescia. O Parque Estadual Marinho da Pedra da Risca do Meio é o primeiro e único parque estadual marinho do Ceará, protegendo uma área rica e diversa.
7:45 AM - Chegada ao Parque e Preparativos.
O mergulhador staff caiu junto da garateia para fazer a amarração inicial do nosso barco. A âncora foi lançada. O silêncio que se seguiu foi preenchido apenas pelo som rítmico das ondas e pela agitação silenciosa da equipe preparando as últimas coisas.
A Pedra da Botija é famosa por ser um "oásis" em meio a uma área mais arenosa, um refúgio para inúmeras espécies.
8:00 AM - A Descida.
Foi a hora de colocarmos nosso equipamento de mergulho scuba e fazer a checagem de duplas.
Com o sinal verde dos staffs, fiz o tradicional passo de gigante para a água morna (característica abençoada do Ceará, com temperatura em torno de 28 °C). A quietude subaquática foi instantânea. Começamos a descida pelo cabo de amarração. A visibilidade estava incrível, perto de 25 metros: nosso Parque Marinho da Pedra da Risca do Meio surpreendeu com uma água cristalina.
A Pedra da Botija e a Vida Marinha
À medida que o fundo do mar aparecia, a estrutura imponente da Pedra da Botija se revelou. Não é uma botija, literalmente falando (só os mais antigos daqui do Nordeste vão saber o que é uma botija, mas tudo bem), mas um aglomerado complexo de rochas cobertas por esponjas, alguns corais e uma infinidade de outros organismos. Parecia um reino secreto.
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Os Gigantes e os Curiosos: O primeiro encontro foi de tirar o fôlego. Mal chegamos ao fundo e uma tartaruga-de-pente, enorme e majestosa, estava descansando tranquilamente sobre uma fenda, antes de decidir se afastar graciosamente. Em seguida, um dos mergulhadores sinalizou: uma moreia verde, gigante que deslizava seu corpo entre as fendas e mostrava sua boca aberta para respirar. Seu tamanho e presença solene foram hipnotizantes. Não é para menos que o Parque é um santuário para essas espécies.
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A Nuvem de Vida: Ao redor da estrutura, um cardume imenso de parus brancos nadava em sincronia, como uma nuvem prateada que se moldava e se transformava. Mais perto das pedras, a explosão de cores: Xiras, Mariquitas, Frades, Ciliares (foto) e Borboletas desfilavam seus padrões vibrantes, ignorando nossa presença.
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Os Habitantes Ocultos: Fui examinando as fendas com a lanterna. Uma moreia-pintada me deu um breve olhar de aviso antes de recuar. Mais adiante, pequenos crustáceos e peixes-pedra pareciam camuflados nas texturas das esponjas.
Cada minuto parecia durar uma eternidade. O silêncio e a conexão direta com aquele mundo eram absolutos. O tempo passou rápido demais, e o manômetro começou a sinalizar que o mergulho estava chegando ao fim. Mas ainda bem que tinha o segundo mergulho!
11:00 AM - A Subida e o Retorno.
Fizemos nossa subida gradual e a parada de segurança obrigatória a 5 metros por 3 minutos. Na superfície, a sensação de êxtase era indescritível. A equipe do barco nos ajudou a subir, todos falando ao mesmo tempo, compartilhando as histórias do que tinham visto. A tartaruga foi, sem dúvida, o destaque para todos.
12:40 AM - De Volta à Praia.
Navegar de volta para Fortaleza com o sol do meio dia a pino, queimando a pele, foi um momento de reflexão. A Pedra da Botija e o Parque Estadual Marinho da Pedra da Risca do Meio são joias que precisamos proteger. Foi um dia mágico, e mal posso esperar para que o meu diário de mergulho registre o próximo capítulo nessa exploração. Se você mergulha ou está pensando em começar, o Ceará tem segredos subaquáticos esperando por você.
Até as próximas bolhas!
